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quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Deusa Baubo


Há uma expressão muito forte que diz: Dice entre las piernas.

Baubo é esta Deusa da Grécia antiga, que traz consigo o arquétipo da sexualidade sagrada e da fertilidade. Na verdade, ela é mais que isso!
Ela representa uma espécie de sensibilidade e expressão única e exclusiva!

Baubo é aquela que acende a chama do interesse da mulher pela vida, e a mantém.
Representada por um corpo robusto, sua boca é uma vulva e seus olhos, seus mamilos.

E qual a mensagem que esta Deusa despudorada quer passar para as mulheres?
Ela quer levar alegria, vida sensual e criativa por onde passa.
Ela desperta o riso que vem de dentro, aquele riso que te faz respirar de verdade porque tem a capacidade de soltar o que estava preso.

Baubo devolve ao corpo uma espécie de humor que mantém desobstruída as passagens, porque desperta uma qualidade sensorial.
Mulheres que se sentem a vontade consigo mesmas revelam verdades próprias que impulsionam o riso coletivo por identificação.
Todas se reconhecem e compartilham.
É a força coletiva, a força do bando!

É um riso obsceno, porque é livre, é vicejante, é maduro e é necessário!
É o riso que salva, que desafoga, que recupera!

O sagrado riso do ventre traz fertilidade e vitalidade.
Baubo nos apresenta a sábia anciã, lá que sabe.
Ela é engraçada, desmedida, corajosa, verdadeira e sobrevivente!

Por isso as piadas viscerais e os gestos obscenos de Baubo são curativos!
Eles curam a alma, e o corpo, e tudo que está em volta!
Sua força maior é que tudo isso deve surgir  meio a um desastre, conflito, loucura, ou qualquer outra situação difícil, ou de transição.

Baubo recupera do fundo do poço, quando não há mais esperança!
Baubo chega, aparece ao acaso, de passagem....e tudo aquilo morto que foi derrubado cresce de novo, com o primeiro riso!
Ela devolve o cio, o gozo.
Baubo te dá a mão e atravessa! Ela é o talismã da entrega!
Baubo dá passagem e a vida segue em frente, mais leve e mais firme, mais solta, com humor e sabedoria de quem já mergulhou o suficiente.






sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Feminilidades





Meu encontro com a lucidez e com meu  senso de presença e pertencimento no mundo  é através da  escrita

Quando cavo por baixo dos escombros auto demolidos e encontro uma passagem de ar para o fluxo criativo.

Porque as coisas desse mundo não bastam. Elas se consomem.

Só posso reconhecer que a fonte do prazer que devolve a significância humana é criar com as próprias mãos!

Aprendi com os mitos e com os contos de fada a ter asas emotivas (que me movem nessa direção)

Aprendi com a Vasalisa a eterna busca dançante da auto-nomia ( a capacidade de me atribuir meus próprios nomes)

Porque minha parte que se auto organiza, se solidifica e reconhece identidade é através das  tecituras  humanas.

Reconcilio minhas partes escrevendo, dando as mãos, abraçando e interligando  vogais com consoantes.

Essa é minha parte linear e segura.  É solar, tem clareza e dá sentido.

Já a minha voz é lunar, cíclica e não decifra indagações. 

Minha voz coloca poder em legitimar o silêncio e ouvir por trás da palavra dita. 

Meu ouvido insiste nisso, nas ações silenciosas, porque minha psicologia foi desde o início a dos gestos que a palavra esconde.

Ausência, geografia emocional e afeto não são da ordem da razão!

E ainda assim é a faceta que me constrói e minha dimensão de maturidade.

Aprendi com a Deusa Hera a me colocar de forma harmônica e pacífica, exercendo habilidades ultrapassadas e preservando valores e tradições!

 Me curvei diante de sua imagem austera  e a ela disse: te aceito e aprendo contigo, você é  maior, respeitosa esposa de Zeus!

Na adolescência queria ser Ártemis, independente e selvagem, desbravadora e solitária.
 Esses eram os nortes que me preenchiam. 

A possibilidade de ser sozinha na vida me fazia muito sentido e ressoava como um lema a defender e praticar.

A maternidade me apresentou Deméter, a  sacerdotisa! Independência integrada e amadurecida, bem diferente de Ártemis de cabelo aos ventos!

Fui pra debaixo da terra fazer sulcos e rachaduras, pra poder voltar vicejante como a maga Perséfone.

Descobri a magia e a alquimia do ou(t)RO, analogia de significância pra poder mergulhar nos mistérios de Afrodite. 

Seu olhar panorâmico possibilita o distanciamento necessário pra poder fazer relações!

Nasci de Atena e assimilar o papel da conquista, do fazer e o motivo da justiça não foi desafio pra mim!

Essas são, então, as mulheres de minha vida. Me reconcilio com todas que me disponibilizam nutrição para minha essência feminina!

Com elas faço resgates  e construções, me fortaleço na minha ancestralidade, dou continuidade nos bordados já começados, nas linhas já traçadas, nos pontos , nós, nas tramas que não foram resolvidas!

 Dou caminho e  passagem pra donzela percorrer seu trajeto de mulher fértil a anciã sábia. La que sabe!
Observo e registro meu processo de crescimento através da influência das minhas mulheres!

Não ao acaso fui inserida no contexto das rodas!
 Me criei dessa forma, nesse espaço  circular sagrado de encontro e revelação . 
As experiências circulares foram dando significado e me imbuindo de propósito de cura.

O amor cria a conexão, a verdade liberta e cria espaço para ser! 
Resgates e reconstruções são cíclicas, circulares e se validam na partilha.

Para sustentar e ancorar meu trabalho com mulheres ativo meu coração, aqueço meu útero, ouço sem fazer ruído, me envolvo pelo tecido humano maleável e flexível, e escrevo!

Trabalhar com mulheres é tecer a trama, tricotar fios de estórias achadas. É ser a moça tecelã, dois avanços e um recuo. 

É se inserir no tempo de Kairós, o que os gregos chamam de tempo oportuno, o momento certo, o tempo de Deus!

Tempo matrístico! Pacífico e próspero! A cooperação e a proteção como única forma de sobrevivência.
O fazer como verdadeira forma de ser

O registro como grafia pra memória reter o  avanço do caminho sinuoso, irregular,com obstáculos, desníveis e propósito de avanço irreversível!





Texto: Cinthya Garcia
Foto: Pinterest 



domingo, 10 de junho de 2012

Sobre Deusas, Ventres e Lamentos


Deméter, a Mãe Terra, tinha uma linda filha chamada Perséfone, que estava um dia brincando ao ar livre. Perséfone encontrou por acaso uma flor de rara beleza e estendeu os dedos para tocar seu lindo cálice. De repente, a terra começou a tremer e uma gigantesca fenda se abriu em ziguezague. Das profundezas das terra chegou Hades, alto e majestoso, o Deus dos Infernos.


Hades apanhou Perséfone, levando-a  para dentro da terra. Os gritos de Perséfone foram ficando cada vez mais fracos a medida que a fenda ia se fechando. Por toda a terra abateu-se um silêncio com odor de perfume de flores esmagadas. E a voz da donzela a gritar ecoou nas pedras das montanhas e borbulhou num lamento vindo do fundo do mar.




Deméter ouviu os gritos das pedras e o choro das águas. Arrancou a grinalda do cabelo, deixou cair de cada ombros seus véus escuros e saiu a sobrevoar a terra como uma enorme ave, chamando por sua filha.

E assim começou a procura longa e enlouquecida de Deméter por sua filha querida. Deméter esbravejava, chorava , gritava, fazia perguntas, procurava debaixo, dentro e em cima de todos os acidentes geográficos , implorava por misericórdia, implorava pela morte, mas não conseguia encontrar sua filha amada.

 Assim , ela, que havia gerado o crescimento perpétuo de tudo, amaldiçoou todos os campos férteis do  mundo, gritando na sua dor.



Em decorrência de sua maldição, nenhuma criança poderia nascer, nenhum trigo poderia crescer, nenhuma flor, nenhum ramo.

A própria Deméter não mais se banhava. Seus mantos estavam encharcados de lama, seus cabelos pendiam em cachos imundos.

Muito embora a dor de seu coração fosse tremenda, ela não se entregava. Depois de muita investigação, de muitos pedidos e de muito incidente, tudo levando a  nada, ela afinal perdeu as forças ao lado de um poço em uma aldeia desconhecida.

Quando recostou seu corpo dolorido na pedra fresca do poço, chegou por ali uma mulher, ou melhor, uma espécie de mulher


Esta mulher chegou dançando, balançando os quadris e os seios nesta pequena dança.
E quando Deméter a viu, não pode deixar de sorrir um pouco.

A fêmea que dançava era realmente mágica, pois não tinha nenhum tipo de cabeça, seus mamilos eram seus olhos e sua vulva era sua boca. Foi  este diferente e intrigante ser que começou a regalar Deméter com algumas piadas picantes e engraçadas.

Demeter começou a  sorrir , depois deu um risinho abafado até que soltou uma boa gargalhada.
Juntas, as duas mulheres riram, a pequena Deusa do Ventre, Baubo, e a poderosa Deusa Deméter, Mãe da Terra.

E foi o riso que tirou Deméter de sua depressão e lhe deu energia para prosseguir em sua busca pela filha, que acabou em sucesso, com a ajuda de Baubo, da velha Hécate, e do sol hélios.
Restituíram Perséfone a sua mãe.
O mundo, a terra e o ventre das mulheres voltaram a vicejar.


Texto: ~*~ Consultório de Afrodite~*~
Imagens: Pinterest