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quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Alma e Aroma


O aroma é o caminho direto para a alma.
 Imergir-se no mundo dos aromas é adentrar  um terreno de mistério, fascínio e memória!
É um  prazeroso e irrecusável convite a experimentar um estado alterado de consciência.
O perfume entorpece, e enobrece!
A fragrância é instantânea, é invisível, silenciosa!
Seu eco alcança o rastro da velha memória intangível, escondida, oculta, e viva!
E assim, emoções dormentes são estimuladas a despertar.
E a valsa se inicia, assim, bem no compasso de um cheiro!

Cheiro de casa de vó, cheiro de doce de cidra.
....de lençol passado, de debaixo da cama
de baú, jardim, chuva de verão.

O aroma é um corpo sólido, vivo e ereto na atmosfera, amante da memória, que flerta com a emoção!
Detalhes, texturas e sensações! Recordações!
Ator  de destaque no início da vida, e na vida inteira.
O bebê reconhece a mãe pelo cheiro, e esse é o seu primeiro sorriso.
Contato envolvente, relação construída através do olfato.


O sentido do olfato é processado na mais antiga parte do cérebro, na área que responde pelos estímulos sexuais, emocionais e espontâneos.
Freud postulou que foi quando começamos a andar sobre os pés, eretos, que perdemos nossa proximidade com a informação olfativa, com os detalhes e nuances olfativos.
 Ao mesmo tempo, nossa visão se expandiu, ganhou preferência sobre o olfato.
Ao longo do tempo nosso olfato perdeu a capacidade de percepção.

Após o Iluminismo o sentido do olfato perdeu lugar.
Declaradamente, passou a ser considerado terreno primitivo, associados a animais, e  por isso, "menor", desimportante.
Immanuel Kant declarou que o olfato era o menos importante dos sentidos, indigno de ser cultivado.
É o que os perfumistas  chamam de - A marginalização do olfato, marco do homem civilizado!


Isso resulta na diminuição de sensibilidade do homem moderno, contemporâneo.
Sua falta de percepção nos detalhes, nas minúcias.
Sua preferência por cheiros sintéticos, que gritam.
Assim o suave não tem vez, o que chega de mansinho não se faz presente.
Porque falta alma mesmo.
Porque desaprendemos a inalar, e a se deixar levar.
As vezes pessoas com visão ficam cegas, se lhes faltam a delicadeza.
O olfato é um caminho para descobrir a essência
A essência da vida!


quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Epifania sobre os cheiros ou coletânea sobre odores


" Odores, mais frequentemente do que qualquer outra sensação, transmitem uma mensagem para o consciente, pouco deteriorada pelo tempo, despidas das irrelevâncias do momento ou dos anos que se passaram, aparentemente viva e nada mais do que convincente"- Roy Bedicheck " The Sense of Smell"
                                                                            
                                                                               ~*~

Não é a visão, a audição, o tato, nem mesmo o paladar- tão intimamente relacionado ao olfato- nenhum outro, somente o nariz evoca dos lugares mais profundos, com tanta veracidade, as materializações distantes e cinematográficas que chamamos de memória!
" Alguém encontra um frasco, e de uma borrifada, um espírito agora renovado e vivo se derrama. Mil idéias adormecidas, lúgubres e crisálidas. Tremendo nas sombras como jovens borboletas, que se põe a voar, as asas enrugadas se abrindo, em tons de azul, sopros de rosa, e faíscas de dourado" - Charles Baudelaire - " O Frasco"


 " Odores podem atrair ou repelir fortemente, o que lhes atribui poderosas metáforas de bem e mal. Odores são também etéreos, não podem ser agarrados nem contidos; em sua intangibilidade, transmitem simultaneamente o sentido da presença e da ausência misteriosa de Deus. Finalmente, odores são inefáveis, transcendem nossa habilidade de defini-los através do idioma" - Constance Classen- historiador cultural

                                                                                 ~*~

"Ele viu que não havia qualquer estado de espírito que não tivesse seu correspondente no mundo dos sentidos, e se pôs a descobrir a verdadeira relação entre eles, imaginando o que haveria no olíbano que faziam com que as pessoas se sentissem místicas, no âmbar cinzento, que mexia com a paixão das pessoas, nas violetas, que despertavam memórias de um romantismo que não existe mais, e no almíscar, que perturbava a mente. - Oscar Wilde - " O retrato de Dorian Gray"


Os odores provocam forte sensações em nós, não controladas pela razão.
Por esse motivo o olfato tem sido há muito tempo celebrado pela literatura.
Baudelaire ( As flores do mal), Oscar Wilde ( Retrato de Dorian Gray),  Ítalo Calvino ( The name, the nose)...poderiam ser definidos como romancistas olfativos.
Os odores abrem uma interseção entre o mundo metafísico e o físico. É a existência destas características, vagas e ao mesmo tempo específicas, que levou vários escritores a escrever sobre o olfato como sendo o sentido da imaginação. Nenhum sentido tem poder de invocar memórias com repercussão emocional profunda e abrangente como o olfato.
Odores são, portanto, capazes de controlar nossa vida emocional
" Um perfume pode afogar anos no aroma que recorda" - Walter Benjamim....



Imagens: pinterest
Referências: Essências e Alquimia - resenha do livro de Mandy Aftel

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Perfumaria Botânica



Desde tempos remotos, as pessoas encontram prazer em esfregar substâncias aromáticas na pele.
O perfume sempre ajudou pessoas a rezar, curar, fazer amor, preparar-se para morte, criar.
A inspiração, enfim, está ligada ao ato de inalar
As essências aromáticas eram artigos de luxo e refinamento altamente valorizados no mundo antigo, e grande parte das rotas comerciais se desenvolveram graças às buscas incessantes por ingredientes aromáticos. Navios traziam canela da África, cardamomo da Índia, gengibre, noz moscada, açafrão e cravo da Indonésia. Eram especiarias cobiçadas para integrar rituais religiosos, remédios e para perfumar o corpo.

" Coloridas, instáveis, sutis e caras, as essências naturais eram uma amante difícil que exigia atenção exclusiva e disposição para abandonar as regras. Nunca ofereciam o conforto de um relacionamento estável, previsível, e sua complexidade inspirava muitos dos que trabalhavam com essas essências a filosofar sobre a relação do perfume com outros aspectos da vida"


Um século depois, nossa sensibilidade olfativa foi marginalizada e amortecida pela invasão química da comida e no meio ambiente, e pela proliferação esmagadora de cheiros fabricados.
O mundo dos odores naturais foi cooptado por produtos; muitas pessoas não conseguem cheirar um eucalipto sem pensar em produto de limpeza.
Uma supersaturação dos cheiros químicos comprometeu nossa habilidade de apreciar odores naturais complexos e sutis.

Somos bombardeados por perfumes em lojas de departamentos que gritam sua presença, e permanecem monótona e insistentemente no corpo e no ar, mas a mágica verdadeira do perfume nos escapa.
Nós perdemos contato com aquilo que inicialmente conduz a nossa espécie a aromas de flores e ervas, e com sua rica história.


Paolo Rovesti escreveu uma crônica sobre o mundo perdido dos perfumes: " Nós, que estamos imersos na artificialidade da vida moderna, não conseguimos lembrar-nos, sem nostalgia ou tristeza, daqueles presentes que a natureza coloca à disposição do homem, hoje negligenciados ou em desuso
Dentre eles estão os paraísos perdidos dos perfumes naturais, dos perfumes do passado e do espírito"




Trecho retirados do livro de Mandy Aftel - Essencias e Alquimia :Um livro sobre Perfumes

Escrito por : ~* ~ Consultório de Afrodite ~*~
Imagens: Pinterest